Levantamento histórico mapeia primeiras instituições para a primeira infância e revela um passado marcado por filantropia, higienismo e longas lacunas de políticas públicas.

 Um estudo histórico reconstruindo o período de 1869 a 1948 mostra que as primeiras iniciativas voltadas à educação e proteção de crianças pequenas em Manaus nasceram sob forte influência filantrópico-assistencial e sanitária — e não como política pública universal de Estado. O trabalho cruza mensagens de governadores ao Legislativo, registros fotográficos e bibliografia especializada, revelando marcos pouco lembrados e o “silenciamento” da história das crianças na cidade. 

Entre os achados, destaca-se a cronologia de instituições: jardins de infância associados a grupos escolares na década de 1930 (como os anexos ao José Paranaguá e ao Machado de Assis), a Creche Alice de Salles (1928) para filhos de pessoas com hanseníase, o 1º Juizado da Infância e da Juventude (1935) sob a atuação do juiz André Araújo, e a Casa da Criança (1948), que segue ativa por convênio com a rede municipal. O quadro reforça que o atendimento às crianças pequenas ocorreu prioritariamente por equipamentos filantrópicos e especializados, em vez da rede municipal estruturada. 

O estudo também recoloca Manaus no cenário da Belle Époque da borracha (fins do século XIX e início do XX), quando a modernização urbana conviveu com trabalho infantil e desigualdades profundas entre “duas infâncias”: a rica, dos livros e passeios, e a pobre, do trabalho precoce. A análise de documentos oficiais registra, por exemplo, o apelo de 1943 em plena 2ª Guerra — “criança coletando borracha usada” — como símbolo da naturalização do trabalho infantil no contexto do Acordo de Washington. 

Os dados de matrículas e frequência escolar na década de 1920 já preocupavam o governo estadual: mesmo com expansão de grupos escolares, estimava-se milhares de crianças fora da escola, e a obrigatoriedade do ensino aparecia como “medida de salvação” ainda sem efetivação administrativa. A pesquisa conclui que a ausência de oferta pública adequada para 0–3 anos foi uma constante, e que as respostas institucionais priorizaram moralização, higiene e abrigo — não a educação integral. 

“A trajetória evidencia lacunas documentais e institucionais. Conhecer esse passado é chave para compreender por que o direito à creche demorou a se tornar política pública universal em Manaus”, sintetizam os autores ao final do capítulo. 

Linha do tempo — Primeiros marcos

  • 1869 – Liceu Provincial Amazonense (origem de formações docentes e do futuro Colégio Estadual). 
  • 1895–1930 – Grupos escolares e jardins de infância anexos (José Paranaguá; Machado de Assis; Saldanha Marinho). 
  • 1928 – Creche Alice de Salles para filhos de hansenianos (caráter sanitário e assistencial). e-book_unindo os rios-295-337
  • 1935 – 1º Juizado da Infância e Juventude (atu. André Araújo). 
  • 1948 – Casa da Criança, que permanece em atividade com convênio municipal. 

Por que isso importa agora

  • Mostra que a origem do atendimento na cidade foi assistencial/higienista, não educacional universal — um legado que ainda ecoa nas disputas por vagas e qualidade. 
  • Expõe lacunas de documentação e de políticas sobre 0–3 anos, úteis para orientar memória institucional, acervo e prioridades de pesquisa e investimento. 
  • Oferece base histórica para comparar modelos (filantropia vs. política de Estado) e sustentar a prioridade orçamentária da primeira infância.
  • O que há de novo: síntese inédita de fontes oficiais, fotos e bibliografia sobre as primeiras instituições para crianças pequenas em Manaus (1869–1948). 
  • Achado central: predomínio de filantropia e higienismo; pouca presença do poder público municipal estruturando a etapa 0–3
  • Impacto: ajuda a explicar a demora na universalização do direito à creche e orienta políticas atuais. 


Capítulo “Antecedentes históricos e o atendimento educacional às crianças pequenas na cidade de Manaus”, de David Xavier da Silva e Vera Maria Ramos de Vasconcellos, in e-book Unindo os Rios (pp. 295–337).  Disponível para acesso: https://www.researchgate.net/publication/395335837_Antecedentes_historicos_e_o_atendimento_educacional_as_criancas_pequenas_na_cidade_de_Manaus


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